
Abel Ferreira alerta para os danos do futebol brasileiro usando Muricy Ramalho como exemplo
Em uma coletiva de imprensa carregada de emoção às vésperas da final da Copa Libertadores, o treinador português Abel Ferreira, do Palmeiras, abriu o...
Em uma coletiva de imprensa carregada de emoção às vésperas da final da Copa Libertadores, o treinador português Abel Ferreira, do Palmeiras, abriu o coração sobre os impactos profundos que o futebol pode causar na vida de um profissional. Diante da expectativa pelo confronto contra o Botafogo, marcado para este sábado (29), às 18h (de Brasília), em Lima, no Peru, Abel destacou como o esporte, especialmente no Brasil, pode invadir o espaço pessoal e comprometer a saúde física e mental. Usando o ex-técnico Muricy Ramalho como exemplo, ele enfatizou a necessidade de manter limites para preservar o bem-estar.

O impacto do futebol na rotina de Abel Ferreira
Abel Ferreira, que assumiu o Palmeiras em 2020 e já conquistou duas Libertadores pelo clube, não esconde as dificuldades que o calendário brasileiro impõe. "Às vezes não consigo dormir, desde o momento que sou jogador, em 1998. São muitas horas de sono sem dormir, já falei do impacto que tem o sono no nosso bem-estar geral", desabafou o treinador. Ele criticou a falta de tréguas no futebol nacional, onde os jogos ocorrem a cada três dias, resultando em semanas exaustivas. "Em uma semana, são três noites sem dormir e eu não posso fazer isso. Isso tem um desgaste físico e mental."
Apesar da pressão da final continental, Abel mantém sua rotina inalterada. "Eu entendo a dimensão do jogo, a maior competição do continente, mas não mudo a minha rotina. A preparação é exatamente a mesma, analisamos o adversário, como vamos atacar, defender, cenários que aparecem no jogo", explicou. Para ele, a chave está na consciência tranquila: "Quando tenho a consciência tranquila, dou o melhor de mim. Eu sei como funciona o futebol, por isso sei que tenho que ter esse acordo paz para dormir. Infelizmente, falo por mim, acredito que os jogadores também."
Muricy Ramalho: um exemplo de vitórias e sacrifícios
Para ilustrar os riscos, Abel citou Muricy Ramalho, um dos treinadores mais vitoriosos da história do futebol brasileiro, a quem admira profundamente. "Vou falar nele, um treinador que eu admiro, que se reformou. O futebol brasileiro deixa marca, mas quero que deixe dentro de campo, não vou deixar que o futebol brasileiro leve isso para fora de campo", disse Abel.
Muricy Ramalho marcou época no cenário nacional. Nascido em São Paulo em 1955, ele conquistou o tricampeonato brasileiro consecutivo com o São Paulo entre 2006 e 2008, um feito histórico que consolidou sua lenda. Pelo Santos, em 2011, ergueu a Copa Libertadores, repetindo o título que o clube já havia vencido com Pelé. Ainda levou o Fluminense ao título nacional em 2010, encerrando uma seca de 30 anos. Sua passagem pelo São Paulo se estendeu até 2015, mas o desgaste acumulado pelo ritmo intenso e a pressão constante levou a uma pausa forçada para cuidar da saúde.
O afastamento de Muricy foi motivado por problemas cardíacos e exaustão mental, comuns entre profissionais expostos ao estresse crônico do futebol. Após um ano de folga, ele retornou como comentarista e coordenador, mas nunca mais assumiu um banco de reservas em tempo integral, servindo como alerta para a geração atual.

A preparação para a final e o equilíbrio entre campo e vida pessoal
Enquanto reflete sobre esses exemplos, Abel foca na estratégia para a final. O Palmeiras, atual bicampeão da Libertadores, enfrenta um Botafogo embalado pela campanha sólida na temporada. A análise tática inclui estudos detalhados do adversário, com ênfase em transições rápidas e cenários de jogo imprevisíveis. "Isso que eu quero que os jogadores entendam: ter a consciência tranquila para dar o melhor", reforçou o português.
O calendário brasileiro, com mais de 70 jogos por temporada para os grandes clubes, contrasta com ligas europeias que priorizam pausas. Estudos da FIFA apontam que o excesso de partidas aumenta em 30% o risco de lesões e burnout entre atletas e treinadores. Abel, que já lidou com críticas e eliminações traumáticas, busca inspiração em sua filosofia: o futebol deve enriquecer, não destruir.

Conclusão: lições para o futuro do futebol
A declaração de Abel Ferreira vai além da coletiva pré-jogo; é um chamado para reflexão sobre a sustentabilidade no esporte. Usando Muricy Ramalho como espelho, ele alerta que as glórias do campo não valem o preço da saúde perdida. No Brasil, onde a paixão pelo futebol é visceral, equilibrar intensidade e bem-estar pode ser o próximo grande desafio. Se o Palmeiras erguer a taça, será não só uma vitória tática, mas um triunfo pessoal para Abel, que resiste aos "danos" do jogo sem deixar que eles transcendam as quatro linhas. O futebol brasileiro, rico em talentos, precisa evoluir para proteger quem o faz brilhar.





