
Adeus a Edgard Catoira: o jornalista pioneiro que resistiu à ditadura militar morre aos 81 anos
Em uma era marcada por censura e repressão, Edgard Catoira emergiu como uma figura emblemática do jornalismo brasileiro. Aos 81 anos, o profissional q...
Em uma era marcada por censura e repressão, Edgard Catoira emergiu como uma figura emblemática do jornalismo brasileiro. Aos 81 anos, o profissional que ajudou a moldar as primeiras páginas da revista VEJA faleceu no Rio de Janeiro na sexta-feira, 28 de outubro. Sua trajetória, entre o compromisso com a verdade e a proteção à família durante a ditadura militar, deixa um legado de coragem e dedicação. Catoira não era apenas um repórter; era um guardião da liberdade de expressão em tempos sombrios.
Início da Carreira e Contribuições à VEJA
Edgard Catoira ingressou na equipe inicial da VEJA em 1968, convidado por seu cunhado, Mino Carta, que na época assumia a direção de redação. Sua participação foi crucial desde o princípio: foi ele quem operacionalizou a primeira capa da revista, lançada em 11 de setembro de 1968, com a icônica imagem da foice e do martelo, simbolizando um momento de tensão política no Brasil. Essa edição marcou o nascimento de uma publicação que se tornaria referência no jornalismo investigativo.
Anos depois, Catoira aceitou o desafio de inaugurar e liderar a sucursal de Salvador, na Bahia. Foi lá que ele conheceu Lu, sua companheira de vida, com quem construiu uma família. Sua expertise em reportagem o levou a cobrir temas variados, sempre com um olhar atento aos detalhes sociais e políticos. Como avô do jornalista Victor Irajá, atualmente na CNN Brasil, Catoira influenciou gerações. Victor, que começou como estagiário e evoluiu para repórter e editor no Radar Econômico da VEJA, cresceu lendo avidamente as edições que o avô ajudara a criar.

Resistência à Ditadura e o Episódio de 1975
A ditadura militar brasileira, que vigorou de 1964 a 1985, testou os limites da bravura de Catoira. Em 25 de outubro de 1975, uma noite fatídica, o jornalista Vladimir Herzog foi assassinado nos porões do regime. Naquele mesmo dia, Catoira abriu as portas de sua casa em São Paulo para uma rede de opositores ao governo, incluindo Mino Carta. Entre telefonemas de militares e negociações tensas para driblar o sistema repressivo, Catoira expressou sua preocupação: “Eu não quero que minha casa vire um aparelho”. Sua relutância era motivada pela proteção aos filhos pequenos – Luisa, de três anos, e Pedro, de apenas dois meses. “Não sei o quanto aguento sob tortura”, confidenciou ele, revelando o peso psicológico da perseguição.
Esses episódios exemplificam o risco constante enfrentado por jornalistas como Catoira. Apesar das ameaças, ele continuou seu trabalho, contribuindo para reportagens que expunham as contradições do regime. Sua atuação na VEJA ajudou a manter viva a chama do jornalismo independente, mesmo sob vigilância constante. Historiadores do período destacam que profissionais como ele foram essenciais para preservar a memória coletiva das violações de direitos humanos.
Legado Familiar e Impacto no Jornalismo Brasileiro
O legado de Edgard Catoira transcende as redações. Sua família, incluindo o neto Victor Irajá, perpetua o compromisso com o jornalismo ético. Irajá, que passou por diversas funções na VEJA, credita ao avô a inspiração para seguir a carreira. Catoira não apenas reportava fatos; ele vivia a essência da profissão, equilibrando o dever cívico com a responsabilidade pessoal.
Além de sua carreira, Catoira era conhecido por sua integridade. Colegas o descreviam como um líder acessível e visionário, capaz de navegar pelas complexidades da sucursal baiana enquanto expandia a influência da revista no Nordeste. Seu falecimento aos 81 anos encerra um capítulo, mas reforça a importância de preservar a história do jornalismo resistente.
Em conclusão, Edgard Catoira personifica a resiliência do jornalismo brasileiro frente à adversidade. Sua morte nos lembra da fragilidade da liberdade de imprensa e da necessidade de honrar pioneiros como ele. Enquanto o Brasil avança, o exemplo de Catoira – de abrir portas para a resistência e fechar as para o medo – continua a inspirar. Que sua memória fortaleça as novas gerações de repórteres em busca da verdade.





