
O que disse a imprensa internacional sobre a suspensão do tarifaço
A decisão do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, de suspender as tarifas de 40% sobre produtos agrícolas brasileiros, como café, carne e frut...
A decisão do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, de suspender as tarifas de 40% sobre produtos agrícolas brasileiros, como café, carne e frutas, gerou ampla repercussão na imprensa internacional. Anunciada inicialmente em abril como uma retaliação ao julgamento e condenação do ex-presidente Jair Bolsonaro por tentativa de golpe de Estado, a medida agora retroage a 13 de novembro, aliviando tensões comerciais entre os dois países. Essa reversão, tomada em meio a pressões domésticas nos EUA, reflete as complexidades da política externa americana e seus impactos no cenário global. Neste artigo, exploramos o contexto da suspensão, as análises de veículos como Reuters e El País, e as implicações econômicas e políticas mais amplas.

Contexto da Suspensão das Tarifas
A imposição das tarifas de 40% sobre importações brasileiras foi uma resposta direta às ações judiciais contra Jair Bolsonaro no Brasil. Condenado por envolvimento em uma tentativa de golpe de Estado, o ex-presidente viu seu caso escalar para o cenário internacional, com Trump posicionando-se como defensor de aliados conservadores. A medida afetava produtos essenciais da pauta de exportações brasileiras, como café, carne bovina, cacau, manga e açaí, representando um golpe significativo para o agronegócio nacional.
De acordo com fontes oficiais da Casa Branca, a suspensão foi motivada por uma reavaliação das políticas comerciais, considerando os custos elevados para os consumidores americanos. Os preços dos alimentos nos EUA haviam subido consideravelmente desde a implementação das tarifas, contribuindo para uma inflação que minava a popularidade de Trump. A decisão é retroativa, o que significa que exportadores brasileiros poderão recuperar valores retidos desde novembro, aliviando um impacto estimado em bilhões de dólares.
Detalhes da Medida e Produtos Afetados
A lista de produtos liberados inclui itens de alto volume de comércio bilateral. Por exemplo:
- Café: O Brasil é o maior exportador mundial, e as tarifas ameaçavam encarecer o produto nos supermercados americanos.
- Carne bovina e suína: Setores que geram milhares de empregos no interior do país.
- Frutas tropicais: Como manga, açaí e cacau, que enfrentavam barreiras adicionais de custo logístico.
Essa suspensão não altera, no entanto, outras sanções impostas a autoridades brasileiras. O ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Alexandre de Moraes, e sua esposa, Viviane Moraes, permanecem listados na Lei Global Magnitsky, uma legislação americana usada para punir violações de direitos humanos e terrorismo. Vistos de outros ministros do STF e familiares foram revogados, mantendo uma camada de tensão diplomática.
Cobertura da Imprensa Internacional
A mídia global destacou a suspensão como um recuo estratégico de Trump, influenciado por fatores internos nos EUA. Veículos renomados analisaram o impacto político e econômico, conectando a decisão a desafios domésticos como a inflação e eleições locais.
Análise da Reuters
A agência de notícias Reuters foi uma das primeiras a reportar a suspensão, enfatizando seu caráter retroativo a partir de 13 de novembro. Em sua cobertura, a Reuters apontou que o aumento nos preços dos alimentos foi um dos principais drivers da queda na aprovação de Trump. De acordo com uma pesquisa Reuters/Ipsos, a popularidade do presidente atingiu o nível mais baixo desde seu retorno ao poder em 2025, caindo para cerca de 35% de aprovação.
O texto da agência britânica destacou que, apesar da reversão tarifária, a ordem executiva de Trump não abordou as sanções contra autoridades brasileiras ligadas ao processo de Bolsonaro. "Isso sugere que o foco agora é mitigar danos econômicos domésticos, sem recuar em questões de soberania aliada", escreveu um analista. A Reuters também contextualizou o cenário brasileiro, lembrando que a condenação de Bolsonaro por golpe de Estado envolveu acusações de incitação à violência e obstrução à justiça, o que Trump classificou como "perseguição política".

Perspectiva do El País
O jornal espanhol El País adotou uma visão mais crítica, descrevendo a suspensão como o início de uma "revisão de política comercial" por parte de Trump. O periódico argumentou que o presidente americano, embora não admitisse publicamente, reconheceu internamente que o custo de vida elevado estava sabotando sua agenda política. "As tarifas, inicialmente apresentadas como uma ferramenta de pressão diplomática, acabaram se voltando contra os interesses americanos", afirmou um editorial.
O El País conectou o episódio a eventos recentes nos EUA, como a vitória do socialista Zohran Mamdani na eleição para prefeito de Nova York. Mamdani, o primeiro muçulmano a ocupar o cargo, baseou sua campanha no combate ao custo de vida, prometendo medidas contra a inflação alimentícia e habitação acessível. Essa narrativa ganhou tração nacional, forçando Trump a recalibrar sua postura protecionista. O jornal espanhol também explorou as ramificações para o Brasil, sugerindo que a suspensão poderia abrir portas para negociações bilaterais mais amplas, incluindo acordos sobre tecnologia e energia.
Outros veículos, como o britânico The Guardian e o americano The New York Times, ecoaram essas análises. O Guardian focou nas implicações para o comércio global, alertando que flutuações tarifárias como essa desestabilizam cadeias de suprimentos. Já o NYT enfatizou o papel das eleições intermediárias nos EUA, onde o tema econômico domina as pautas dos democratas.
Implicações Econômicas e Políticas
A suspensão das tarifas tem ramificações profundas para ambos os países. Economicamente, o Brasil ganha fôlego imediato: o agronegócio, que responde por cerca de 25% do PIB nacional, viu suas exportações para os EUA crescerem 15% nos últimos anos. Analistas do Banco Central brasileiro estimam que a medida evite perdas de até US$ 2 bilhões em 2024, permitindo que produtores recuperem competitividade no mercado americano.
No entanto, as tensões políticas persistem. As sanções contra Alexandre de Moraes e outros juízes do STF sinalizam que Trump mantém uma postura intervencionista em assuntos internos brasileiros. Isso pode complicar relações diplomáticas, especialmente com o governo Lula, que prioriza a defesa da soberania judicial. Especialistas em relações internacionais, como os do Council on Foreign Relations, preveem que essa dualidade – alívio comercial aliado a pressão política – defina o tom das interações EUA-Brasil nos próximos meses.
Impactos no Cenário Global
Além do bilateral, a decisão influencia o comércio mundial. Países como a China e a União Europeia, que competem com o Brasil em commodities agrícolas, podem ajustar suas estratégias. Trump, por sua vez, usa essa manobra para reconquistar apoio em estados agrícolas como Iowa e Texas, onde a inflação de alimentos é um ponto sensível.
Estudos do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) no Brasil indicam que a suspensão poderia impulsionar o crescimento do setor exportador em 3-5% no próximo ano, beneficiando regiões como o Centro-Oeste e o Nordeste. Internacionalmente, agências como a OMC (Organização Mundial do Comércio) monitoram o caso para evitar precedentes de uso político de tarifas.

Conclusão
A suspensão do tarifaço por Donald Trump marca um capítulo de pragmatismo na turbulenta relação EUA-Brasil, priorizando interesses econômicos sobre disputas ideológicas. Enquanto a imprensa internacional, de Reuters a El País, destaca os custos políticos para Trump e os benefícios para o Brasil, fica claro que o equilíbrio entre comércio e diplomacia permanece frágil. Para o futuro, negociações mais estruturadas serão essenciais para evitar novas escaladas, garantindo que o foco permaneça no bem-estar de produtores e consumidores de ambos os lados. Essa decisão não só alivia pressões imediatas, mas também abre janelas para uma parceria mais estável no hemisfério ocidental.





