Tarifaço de Trump: Nova Lista de Exceções Beneficia Apenas 37% das Exportações Brasileiras, Afirma CNI
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Tarifaço de Trump: Nova Lista de Exceções Beneficia Apenas 37% das Exportações Brasileiras, Afirma CNI

Em um cenário de tensões comerciais globais, o governo dos Estados Unidos, sob a liderança de Donald Trump, anunciou recentemente uma nova lista de ex...

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Em um cenário de tensões comerciais globais, o governo dos Estados Unidos, sob a liderança de Donald Trump, anunciou recentemente uma nova lista de exceções às tarifas de 40% impostas sobre importações brasileiras. Essa medida, conhecida como "tarifaço", afeta diretamente o fluxo de exportações do Brasil para o maior mercado consumidor do mundo. Apesar do alívio para alguns setores, especialistas da Confederação Nacional da Indústria (CNI) alertam que cerca de 63% das exportações brasileiras continuam sujeitas às barreiras tarifárias elevadas. Com exportações totais para os EUA estimadas em US$ 15,7 bilhões em 2024, o impacto econômico pode ser significativo, especialmente para a indústria nacional. Nesta análise, exploramos os detalhes da decisão, seus efeitos setoriais e as perspectivas de negociações futuras entre Brasília e Washington.

Ilustração representando o impacto das tarifas de Trump nas exportações brasileiras

O Contexto do Tarifaço e Sua Evolução

O "tarifaço" de Trump remete a uma série de medidas protecionistas implementadas pelo governo americano desde julho de 2024, com o objetivo de proteger a indústria doméstica e reduzir o déficit comercial. Inicialmente, as tarifas de 40% foram aplicadas a uma ampla gama de produtos importados, incluindo manufaturados e commodities do Brasil. Essa política ecoa as ações protecionistas da primeira gestão Trump, como as tarifas sobre aço e alumínio em 2018, que já haviam gerado retaliações brasileiras e negociações bilaterais intensas.

De acordo com dados do Ministério da Economia brasileiro, os Estados Unidos representam o segundo maior destino das exportações nacionais, atrás apenas da China. Em 2024, o comércio bilateral ultrapassou os US$ 30 bilhões, com o Brasil exportando principalmente commodities agrícolas e produtos industriais. A imposição das tarifas ampliadas em julho representou um choque, elevando os custos de entrada no mercado americano e forçando empresas brasileiras a buscar alternativas, como mercados na Ásia e Europa.

Frederico Lamego, superintendente de Relações Internacionais da CNI, descreve o tarifaço como uma resposta à inflação interna nos EUA e à pressão de setores industriais americanos. "A medida inicial de julho foi ampla e indiscriminada, afetando até aliados comerciais como o Brasil. Agora, com a publicação da ordem complementar em 14 de novembro, seguida pela lista de exceções ontem, vemos um ajuste que reflete negociações diplomáticas", explica Lamego em entrevista exclusiva ao G1.

Essa evolução não é isolada. Historicamente, acordos como o USMCA (substituto do NAFTA) demonstram a estratégia de Trump de renegociar termos comerciais para favorecer os interesses americanos. No caso brasileiro, a ausência de um acordo de livre comércio bilateral agrava a vulnerabilidade, diferentemente de nações como o México, que desfrutam de acesso preferencial.

As Negociações Iniciais e o Papel da Diplomacia

As tratativas entre os governos de Lula e Biden (com Trump assumindo em janeiro de 2025) começaram logo após o anúncio do tarifaço. Embaixadas e ministérios trocaram propostas, com o Brasil argumentando que as tarifas violam regras da OMC (Organização Mundial do Comércio). A menção explícita às negociações com o Brasil na ordem recente é vista como um sinal positivo, o primeiro desde julho.

Lamego enfatiza que essa boa vontade pode ser impulsionada pela preocupação americana com a inflação, que atingiu 3,2% em outubro de 2024, segundo o Bureau of Labor Statistics. Produtos brasileiros, como alimentos, ajudam a mitigar pressões inflacionárias nos EUA, justificando exceções.

A Nova Lista de Exceções: Avanços e Limitações

A lista atualizada eleva para 238 o número de produtos brasileiros isentos da tarifa adicional de 40%, complementando a ordem de novembro. Essa expansão beneficia cerca de 37% das exportações totais para os EUA, totalizando aproximadamente US$ 5,8 bilhões em valor. Setores como o agronegócio saem na frente, com isenções para café, carne bovina, frutas tropicais, castanha-do-pará, fertilizantes e insumos agrícolas essenciais.

  • Café: O Brasil, maior produtor mundial, exporta anualmente cerca de 1,5 milhão de toneladas para os EUA. A isenção preserva a competitividade frente a concorrentes como Colômbia e Vietnã.
  • Carne e Frutas: Produtos como bovinos e abacates ganham alívio, evitando perdas estimadas em US$ 500 milhões anuais.
  • Fertilizantes: Importantes para a agricultura americana, esses insumos representam 10% das exportações químicas brasileiras.

No entanto, Lamego classifica o impacto como misto. "Embora positivo para o agro, a maior parte dos bens manufaturados — que compõem 45% das exportações industriais — permanece sob as tarifas. Isso cria uma barreira relevante para a diversificação da pauta exportadora brasileira", afirma.

Para ilustrar, em 2023, as exportações industriais para os EUA somaram US$ 7 bilhões, com máquinas e equipamentos liderando. Sem exceções, esses itens enfrentam custos adicionais de até 40%, tornando-os menos atrativos em comparação com produtores locais ou asiáticos.

Gráfico mostrando a divisão das exportações brasileiras afetadas pelas tarifas

Setores Específicos Beneficiados e Excluídos

Além dos itens agrícolas, a lista inclui cera de carnaúba e alguns minerais, mas exclui a maioria dos manufaturados. A aviação civil, por exemplo, opera com tarifa de apenas 10%, mas isso ainda representa uma desvantagem frente ao acordo EUA-União Europeia, que zera tarifas para aeronaves. A Embraer, gigante brasileira do setor, já reportou perdas de US$ 200 milhões em contratos potenciais devido a isso.

Outros excluídos incluem móveis, couro, calçados, óleos essenciais e vermiculita. Esses setores, concentrados no Sul e Sudeste do Brasil, empregam milhões e dependem do mercado americano para 15-20% de suas vendas externas.

Impactos Econômicos e Desafios para a Indústria Brasileira

Com 63% das exportações ainda sujeitas às tarifas, o tarifaço pode custar ao Brasil até US$ 3 bilhões em receitas perdidas em 2025, segundo projeções da CNI baseadas em modelos econométricos. A indústria, que responde por 70% do PIB manufatureiro afetado, enfrenta repasses de custos aos consumidores americanos, redução de margens de lucro e possível desvio para mercados menos rentáveis.

Empresas como a JBS (carne) e a Suzano (papel e celulose) celebram as exceções, mas associações industriais como a Abicalçados (calçados) e a Abimóvel (móveis) alertam para demissões e investimentos paralisados. "Sem um acordo amplo, corremos o risco de uma recessão setorial", diz Lamego.

No âmbito macroeconômico, o real desvalorizado (R$ 5,60 por dólar em novembro de 2024) mitiga parte do impacto, mas não compensa as barreiras. Além disso, retaliações brasileiras, como tarifas sobre produtos americanos, estão em discussão no Congresso, podendo escalar o conflito.

Estratégias de Mitigação e Diversificação

A CNI recomenda diversificação de mercados, com foco na UE e Mercosul. Iniciativas como o acordo Mercosul-UE, aprovado em 2024, abrem portas para €100 bilhões em comércio. Investimentos em inovação, como automação na indústria de calçados, também são sugeridos para aumentar competitividade.

Estudos do IPEA indicam que, sem resolução, o crescimento do PIB brasileiro pode cair 0,5% em 2025, com efeitos cascata em empregos e investimentos estrangeiros.

Perspectivas de Negociações e o Futuro das Relações Comerciais

As negociações entram em fase decisiva, com rodadas bilaterais previstas para dezembro de 2024. Lamego vê otimismo moderado: "A menção ao Brasil na ordem é um gesto diplomático relevante, indicando que Washington prioriza parcerias estáveis em meio à instabilidade global."

Fatores como as eleições americanas e a transição para o governo Trump influenciarão o tom. Analistas preveem que um acordo setorial, similar ao de 2019 sobre aço, possa emergir, isentando mais produtos industriais em troca de concessões brasileiras em propriedade intelectual e agricultura.

A OMC pode mediar disputas, mas resoluções demoram. Enquanto isso, o Brasil busca apoio de blocos como o BRICS para contrabalançar pressões unilaterais.

Em resumo, o tarifaço de Trump representa um teste para a resiliência econômica brasileira. Embora a nova lista de exceções traga alívio parcial, os desafios para a indústria persistem, demandando diplomacia astuta e reformas internas.

Conclusão: Rumo a um Equilíbrio Comercial Sustentável

O anúncio das exceções é um passo adiante, mas insuficiente para mitigar os efeitos plenos do tarifaço. Com 63% das exportações ainda encarecidas, o Brasil precisa intensificar negociações para um acordo bilateral que equilibre interesses mútuos. A CNI e o governo federal unem forças para defender a competitividade nacional, apostando em diversificação e inovação como caminhos para superar barreiras. No longo prazo, um comércio mais justo com os EUA não só preservará empregos e receitas, mas também fortalecerá a posição do Brasil no cenário global. Acompanhe as atualizações, pois as próximas semanas serão cruciais para o futuro das exportações brasileiras.

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